Era uma vez um menino que nasceu a 7 de outubro
de 1929 na aldeia de Travassô, concelho de Águeda a quem deram o nome de
Sebastião.
Além do pai Manuel e da mãe Delfina, o Sebastião tinha
sete irmãos, cinco mais velhos e dois mais novos.
Aos 7 anos iniciou a escola primária e, no
regresso a casa depois das aulas, fazia muitos disparates com os seus colegas
de escola. Em casa esperavam-no sempre várias tarefas agrícolas.
Na adolescência, o Sebastião além das obrigações
que tinha de fazer ia quase todos os domingos ao Mercado de Águeda com a mãe,
que selecionava os melhores produtos agrícolas cultivados pela família para cativar
os fregueses que iam às compras. Depois, a mãe, comprava no talho a carne e
outros artigos necessários, a roupa e calçado, mais em conta.
Num desses domingos de manhã e durante a azáfama
do Mercado, o Sebastião aproximou-se de um rapaz que vendia jornais para
aproveitar melhor o tempo que esperava pela mãe. Propôs ao rapaz ajudá-lo na
venda, em troca de algum dinheiro. Ele, desconfiado, lá lhe entregou alguns jornais
e algum tempo depois de apregoar os nomes o “Notícias”, ”Primeiro de Janeiro” e
outros, o Sebastião foi entregar-lhe o dinheiro da venda e continuou o resto da
manhã cheio de entusiasmo.
Ao fim da manhã, depois de a mãe ter vendido o
que trouxera e comprado o que precisava, reparou no Sebastião com a saca dos
jornais a apregoar e a vender. Para saber de quem eram os jornais dirigiu-se a
um quiosque ali perto para falar com o dono.
Nos domingos seguintes, em dias de Mercado, lá ia
o Sebastião com a mãe Delfina novamente e já sabia o que tinha a fazer. Pegava
no saco com os jornais e começava a vendê-los, como um verdadeiro ardina. No
final de cada domingo de venda, depois de almoçar em casa do dono do quiosque,
regressava a sua casa com o dinheiro a que tinha direito.
Assim cresceu o Sebastião, a sua vida marcada por
vários episódios, uns divertidos e engraçados e outros menos, sempre vigiado
pelos seus pais e irmãos mais velhos.
Durante algum tempo o Sebastião ainda frequentou Colégio
de Montariol em Braga, com intenção de seguir para padre Franciscano. Um amigo
dos pais patrocinava a despesa com os estudos no referido colégio pois queria
formar padres Franciscanos, num total de cinco, tantos como os Santos Mártires
de Marrocos, padroeiros religiosos da aldeia de Travassô. Esteve no tal Colégio
durante oito meses mas acabou por regressar a casa.
Na volta, reiniciou o trabalho no campo, sabia
cuidar de todos os animais e também lidar com todos os instrumentos agrícolas
apropriados para o serviço de lavrador, mas havia pouco trabalho, o que levou o
Sebastião a seguir os passos de dois dos irmãos mais velhos e optar por ser criado
de servir em casas de proprietários abastados, executando os serviços de agricultura.
O tempo foi passando… Aos 19 anos de idade o Sebastião foi à inspeção
para cumprir o serviço militar obrigatório, que durava 18 meses.
Ficou apurado para todo o serviço militar e em março de 1950, recebeu
ordem para se apresentar na Escola Prática de Engenharia (EPE) na freguesia de Tancos,
concelho de Vila Nova da Barquinha.
Mais tarde, foi incorporado na Companhia de
Sapadores de Assalto como Soldado Recruta, a preparação militar demorou cerca
de 5 meses e terminou com a cerimónia do Juramento de Bandeira. A partir daí passou
a ser Soldado Apto, a exercer
serviço de guarda e reforço noturno e também as funções de auxiliar do padre capelão-militar.
O Soldado Sebastião sempre aproveitava os tempos livres
para estudar e frequentou mesmo a Escola de Cabos e as Escolas Regimentais que
lhe davam a possibilidade de chegar ao posto de Furriel.
Assim passaram os 18 meses obrigatórios, entre
1950 e 1952, escolheu ficar na tropa e seguir a carreira militar. A preocupação
era porque lá fora, predominava a falta de trabalho remunerado e os fracos salários.
Em 1952 surgiu um convite para ir como voluntário
para Macau, na altura Província Portuguesa, que o Sebastião aceitou e uns dias
depois embarcou no cais de Santa Apolónia em Lisboa, num barco só de militares.
Nos períodos de folga estudava, com a intenção de
subir de posto, em Macau matriculou-se no Colégio de São João de Brito, onde
conseguiu fazer o antigo 2º ano dos Liceus.
Regressou a Portugal 6 anos depois, já como
Furriel, posto mais baixo da classe de Sargentos.
Menos de um ano depois o Furriel Sebastião foi
mobilizado para a ir para a Índia - Goa, com destino a um Quartel em Pondá. Aí
tomou a decisão de casar com a senhora Dona Anilce, o que veio a acontecer em 15
de agosto de 1959.
A principal finalidade do serviço militar em
Pondá era a vigilância das fronteiras com a União Indiana.
Apesar de todo o esforço para impedir o avanço
dos invasores em dezembro de 1961 o Sebastião e os seus companheiros foram
feitos prisioneiros num quartel situado em Pangim, algum tempo depois
transportaram-os para campos de “Detenção” onde ficaram até maio de 1962, data
em que iniciaram a viagem de repatriação.
Os detidos eram ocupados na limpeza de estradas e
na remoção de entulho das pontes que os próprios destruíram aquando da invasão.
No dia da libertação, em maio de 1962, viajaram de avião, de Goa para Carachi
no Paquistão e ali embarcaram numa viagem de barco até Lisboa.
Depois de voltar o Sebastião e família escolheram
morar na Praia do Ribatejo, uma freguesia situada perto de Vila Nova da
Barquinha.
Pouco tempo depois é transferido para Lisboa,
segue-se a Guiné. Mais tarde é destacado para Moçambique, na cidade de Lourenço
Marques, hoje chamada de Maputo, acompanhado com a família já com o posto de 2º
Sargento. Após 4 anos em Moçambique, regressam todos a Lisboa.
O 2º Sargento Sebastião sem nunca parar de
estudar é promovido a 1º Sargento e, volta novamente a ser destacado para Moçambique,
desta vez na cidade de Nampula. A família chega mais tarde e todos ali viveram quase
2 anos.
Entretanto o 1º Sargento Sebastião é chamado para
frequentar o curso na Escola Central de Sargentos, mais tarde Instituto
Superior Militar, em Águeda, que lhe dava acesso, à categoria de Oficial, ali permaneceu
2 anos que e era o tempo mínimo para a frequentar o curso.
Mais tarde Sebastião é mobilizado para a ilha da Madeira
para desempenhar as funções de Chefe de Contabilidade do Conselho
Administrativo. Chegou à Madeira em 1972 com a família e lá viveram até pouco
tempo depois do 25 de abril de 1974.
Regressa novamente a Águeda, ao Instituto
Superior Militar, onde é promovido a Alferes.
Decorridos mais 2 anos o Alferes Sebastião é
destacado como Secretário para o Tribunal Militar em Lisboa. É neste serviço
que é promovido ao posto de Tenente do quadro permanente do Exército.
Alguns meses depois volta para Águeda e é promovido
a Capitão do Exército.
Foi então no Instituto Superior Militar em
Águeda, que o Capitão Sebastião termina a sua carreira militar, em novembro de
1992, passando à reforma com 42 anos de serviço.
Finalmente, em casa da família em Travassô, o
Sebastião sente que regressou às suas origens. A leitura e os livros são, desde
a sua reforma, ocupação e passatempo.
Alguns dos livros e escritores que o Sebastião leu
e mais gostou foram de José Saramago, Gabriel Garcia Márquez, Eça de Queirós,
Leo Tolstoi, Almeida Garrett, Jorge Amado, Ramalho Ortigão, Júlio Diniz,
Aquilino Ribeiro e muitos mais de que não se recorda, uma média de um por mês.
O meu avô, o Capitão Sebastião contou e descreveu
as suas memórias, aos 85 anos de idade, agora adaptadas e
resumidas pelo neto Bernardo, eu.
A aventura é simplesmente viver…
Bernardo Pinho-6ºA (Concurso "Uma Aventura Literária...2016")
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