segunda-feira, 18 de julho de 2016

A Aventura do Sebastião

Era uma vez um menino que nasceu a 7 de outubro de 1929 na aldeia de Travassô, concelho de Águeda a quem deram o nome de Sebastião.
Além do pai Manuel e da mãe Delfina, o Sebastião tinha sete irmãos, cinco mais velhos e dois mais novos.
Aos 7 anos iniciou a escola primária e, no regresso a casa depois das aulas, fazia muitos disparates com os seus colegas de escola. Em casa esperavam-no sempre várias tarefas agrícolas.
Na adolescência, o Sebastião além das obrigações que tinha de fazer ia quase todos os domingos ao Mercado de Águeda com a mãe, que selecionava os melhores produtos agrícolas cultivados pela família para cativar os fregueses que iam às compras. Depois, a mãe, comprava no talho a carne e outros artigos necessários, a roupa e calçado, mais em conta.
Num desses domingos de manhã e durante a azáfama do Mercado, o Sebastião aproximou-se de um rapaz que vendia jornais para aproveitar melhor o tempo que esperava pela mãe. Propôs ao rapaz ajudá-lo na venda, em troca de algum dinheiro. Ele, desconfiado, lá lhe entregou alguns jornais e algum tempo depois de apregoar os nomes o “Notícias”, ”Primeiro de Janeiro” e outros, o Sebastião foi entregar-lhe o dinheiro da venda e continuou o resto da manhã cheio de entusiasmo.
Ao fim da manhã, depois de a mãe ter vendido o que trouxera e comprado o que precisava, reparou no Sebastião com a saca dos jornais a apregoar e a vender. Para saber de quem eram os jornais dirigiu-se a um quiosque ali perto para falar com o dono.
Nos domingos seguintes, em dias de Mercado, lá ia o Sebastião com a mãe Delfina novamente e já sabia o que tinha a fazer. Pegava no saco com os jornais e começava a vendê-los, como um verdadeiro ardina. No final de cada domingo de venda, depois de almoçar em casa do dono do quiosque, regressava a sua casa com o dinheiro a que tinha direito.
Assim cresceu o Sebastião, a sua vida marcada por vários episódios, uns divertidos e engraçados e outros menos, sempre vigiado pelos seus pais e irmãos mais velhos.
Durante algum tempo o Sebastião ainda frequentou Colégio de Montariol em Braga, com intenção de seguir para padre Franciscano. Um amigo dos pais patrocinava a despesa com os estudos no referido colégio pois queria formar padres Franciscanos, num total de cinco, tantos como os Santos Mártires de Marrocos, padroeiros religiosos da aldeia de Travassô. Esteve no tal Colégio durante oito meses mas acabou por regressar a casa.
Na volta, reiniciou o trabalho no campo, sabia cuidar de todos os animais e também lidar com todos os instrumentos agrícolas apropriados para o serviço de lavrador, mas havia pouco trabalho, o que levou o Sebastião a seguir os passos de dois dos irmãos mais velhos e optar por ser criado de servir em casas de proprietários abastados, executando os serviços de agricultura.
O tempo foi passando… Aos 19 anos de idade o Sebastião foi à inspeção para cumprir o serviço militar obrigatório, que durava 18 meses.
Ficou apurado para todo o serviço militar e em março de 1950, recebeu ordem para se apresentar na Escola Prática de Engenharia (EPE) na freguesia de Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha.
Mais tarde, foi incorporado na Companhia de Sapadores de Assalto como Soldado Recruta, a preparação militar demorou cerca de 5 meses e terminou com a cerimónia do Juramento de Bandeira. A partir daí passou a ser Soldado Apto, a exercer serviço de guarda e reforço noturno e também as funções de auxiliar do padre capelão-militar.
O Soldado Sebastião sempre aproveitava os tempos livres para estudar e frequentou mesmo a Escola de Cabos e as Escolas Regimentais que lhe davam a possibilidade de chegar ao posto de Furriel.
Assim passaram os 18 meses obrigatórios, entre 1950 e 1952, escolheu ficar na tropa e seguir a carreira militar. A preocupação era porque lá fora, predominava a falta de trabalho remunerado e os fracos salários.
Em 1952 surgiu um convite para ir como voluntário para Macau, na altura Província Portuguesa, que o Sebastião aceitou e uns dias depois embarcou no cais de Santa Apolónia em Lisboa, num barco só de militares.
Nos períodos de folga estudava, com a intenção de subir de posto, em Macau matriculou-se no Colégio de São João de Brito, onde conseguiu fazer o antigo 2º ano dos Liceus.
Regressou a Portugal 6 anos depois, já como Furriel, posto mais baixo da classe de Sargentos.
Menos de um ano depois o Furriel Sebastião foi mobilizado para a ir para a Índia - Goa, com destino a um Quartel em Pondá. Aí tomou a decisão de casar com a senhora Dona Anilce, o que veio a acontecer em 15 de agosto de 1959.
A principal finalidade do serviço militar em Pondá era a vigilância das fronteiras com a União Indiana.
Apesar de todo o esforço para impedir o avanço dos invasores em dezembro de 1961 o Sebastião e os seus companheiros foram feitos prisioneiros num quartel situado em Pangim, algum tempo depois transportaram-os para campos de “Detenção” onde ficaram até maio de 1962, data em que iniciaram a viagem de repatriação.
Os detidos eram ocupados na limpeza de estradas e na remoção de entulho das pontes que os próprios destruíram aquando da invasão. No dia da libertação, em maio de 1962, viajaram de avião, de Goa para Carachi no Paquistão e ali embarcaram numa viagem de barco até Lisboa.
Depois de voltar o Sebastião e família escolheram morar na Praia do Ribatejo, uma freguesia situada perto de Vila Nova da Barquinha.
Pouco tempo depois é transferido para Lisboa, segue-se a Guiné. Mais tarde é destacado para Moçambique, na cidade de Lourenço Marques, hoje chamada de Maputo, acompanhado com a família já com o posto de 2º Sargento. Após 4 anos em Moçambique, regressam todos a Lisboa.
O 2º Sargento Sebastião sem nunca parar de estudar é promovido a 1º Sargento e, volta novamente a ser destacado para Moçambique, desta vez na cidade de Nampula. A família chega mais tarde e todos ali viveram quase 2 anos.
Entretanto o 1º Sargento Sebastião é chamado para frequentar o curso na Escola Central de Sargentos, mais tarde Instituto Superior Militar, em Águeda, que lhe dava acesso, à categoria de Oficial, ali permaneceu 2 anos que e era o tempo mínimo para a frequentar o curso.
Mais tarde Sebastião é mobilizado para a ilha da Madeira para desempenhar as funções de Chefe de Contabilidade do Conselho Administrativo. Chegou à Madeira em 1972 com a família e lá viveram até pouco tempo depois do 25 de abril de 1974.
Regressa novamente a Águeda, ao Instituto Superior Militar, onde é promovido a Alferes.
Decorridos mais 2 anos o Alferes Sebastião é destacado como Secretário para o Tribunal Militar em Lisboa. É neste serviço que é promovido ao posto de Tenente do quadro permanente do Exército.
Alguns meses depois volta para Águeda e é promovido a Capitão do Exército.
Foi então no Instituto Superior Militar em Águeda, que o Capitão Sebastião termina a sua carreira militar, em novembro de 1992, passando à reforma com 42 anos de serviço.
Finalmente, em casa da família em Travassô, o Sebastião sente que regressou às suas origens. A leitura e os livros são, desde a sua reforma, ocupação e passatempo.
Alguns dos livros e escritores que o Sebastião leu e mais gostou foram de José Saramago, Gabriel Garcia Márquez, Eça de Queirós, Leo Tolstoi, Almeida Garrett, Jorge Amado, Ramalho Ortigão, Júlio Diniz, Aquilino Ribeiro e muitos mais de que não se recorda, uma média de um por mês.
O meu avô, o Capitão Sebastião contou e descreveu as suas memórias, aos 85 anos de idade, agora adaptadas e resumidas pelo neto Bernardo, eu.
A aventura é simplesmente viver…



Bernardo Pinho-6ºA  (Concurso "Uma Aventura Literária...2016")

Sem comentários:

Enviar um comentário